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Atualizado hoje às 16:43
Ex-vice jurídico, ex-jogador Christian e mais cinco são condenados por desvios de dinheiro no Inter
Esquema de fraudes causou prejuízo de mais de R$ 260 mil ao Sport Club Internacional
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) obteve a condenação de sete pessoas, com penas entre 6 e 14 anos de prisão, por envolvimento em um esquema de fraudes, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação que causou prejuízo de mais de R$ 260 mil ao Sport Club Internacional. A sentença foi proferida nesta quinta-feira, 5 de março, pela 2ª Vara Estadual de Processo e Julgamento dos Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro de Porto Alegre. Entre os condenados, há um ex-vice-presidente jurídico, advogados, operador financeiro e até um ex-jogador do clube.
A ação penal teve origem em investigação conduzida pelo promotor de Justiça Flávio Duarte, da Promotoria de Justiça Especializada Criminal de Porto Alegre, e a denúncia foi recebida em 17 de setembro de 2020. Os fatos ocorreram principalmente entre 2015 e 2016 e envolveram a atuação de então vice-presidente jurídico, que se valeu do cargo para inserir cláusulas fraudulentas em acordos trabalhistas e contratos de prestação de serviços, induzindo o Internacional em erro e desviando recursos em benefício próprio e de terceiros.
Conforme reconhecido na sentença, o esquema envolveu acordos trabalhistas firmados com atletas e a contratação de serviços jurídicos externos. Em um dos casos, foi incluída cláusula fraudulenta em acordo trabalhista, resultando no desvio de R$ 138 mil. Em outro, um acordo com ex-jogador ocasionou prejuízo de R$ 70 mil. Já em contrato de prestação de serviços advocatícios, parte dos honorários foi desviada por meio de um acerto ilícito, causando dano de R$ 52 mil ao clube. Após os estelionatos, os valores foram ocultados e dissimulados mediante repasses a empresas e contas de terceiros, caracterizando lavagem de dinheiro.
A Justiça também reconheceu a prática de embaraço à investigação de organização criminosa, com tentativas de orientar depoimentos e a produção de documento falso para dificultar a apuração conduzida pelo MPRS. Ao final do julgamento, os condenados receberam penas que variam de seis a 14 anos de reclusão, conforme a participação de cada um nos crimes de estelionato, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação, além da aplicação de multas.
A sentença ainda acolheu o pedido do MPRS para reparação dos danos, determinando a restituição ao Internacional do total dos R$ 260 mil, devidamente corrigido e acrescido de juros legais.
Os condenados
Marcelo Castro (Ex-vice-presidente jurídico): Apontado como o líder do esquema, foi condenado a 14 anos e 3 meses de prisão em regime fechado por estelionato, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação.
Rogério de Moraes Bastos (Advogado de atleta): Atuava sem vínculo direto com o clube e auxiliou na fraude e ocultação de valores. Recebeu pena de 10 anos e 6 meses em regime fechado.
Carlos Eduardo de Jesus Pinheiro (Intermediário externo): Atuou na dissimulação dos recursos e obstrução das investigações, sendo condenado a 9 anos em regime fechado.
Christian Corrêa Dionísio (Ex-jogador): Firmou um acordo trabalhista fraudulento para facilitar a lavagem de dinheiro. Foi condenado a 6 anos em regime semiaberto.
Cássio de Jesus Pinheiro (Operador financeiro): Ligado ao dirigente, ocultou a origem ilícita dos valores e recebeu pena de 9 anos em regime fechado.
Cintia Luciana de Castro e Paula de Castro (Advogadas): Contratadas pelo clube, participaram da elaboração do contrato fraudulento e da lavagem de dinheiro, sendo condenadas a 6 anos cada em regime semiaberto
Entenda o caso
As investigações sobre as suspeitas de irregularidades no Inter começaram em 2017, no ano seguinte ao rebaixamento do clube para a Série B. Em abril, o Conselho Fiscal do clube emitiu parecer recomendando ao Conselho Deliberativo a reprovação das contas da gestão Piffero.
Em decisão inédita, o Conselho acolheu ao parecer e reprovou as contas do clube pela primeira vez na história. Na ocasião, o presidente do Conselho Fiscal Geraldo Costa da Camino pediu abertura de sindicância para apurar "graves falhas de controles internos" apontadas por uma auditoria externa contratada pelo clube.
Em setembro, um relatório sobre as finanças do Inter detectou uma "inconsistência" de R$ 9 milhões em contratos não realizados com cinco empresas do ramo de construção civil. O documento apontava o pagamento suspeitos para obras que não haviam sido realizadas. Os conselheiros criaram uma comissão especial para investigar os gastos na gestão anterior.
Mais de um ano depois, em decisão considerada histórica, o Conselho Deliberativo do Inter votou pela inelegibilidade de Piffero e outros três ex-dirigentes por 10 anos. O ex-presidente, o ex-vice de Finanças, Pedro Affatato; o ex-vice de Patrimônio, Emídio Ferreira; e o ex-vice de Administração, Alexandre Limeira, foram considerados culpados por gestão irregular e temerária no biênio 2015/2016.
Em dezembro de 2018, o Ministério Público deflagrou a "Operação Rebote" e cumpriu mandados de busca e apreensão contra ex-dirigentes da gestão Piffero. Na primeira fase foram 14 pessoas denúnciadas e mais essas sete na segunda fase, condenadas nesta ação.
O ex-presidente do Inter, Vitorifo Piffero, e o ex-vice de Finanças, Pedro Affatato, e mais três pessoas foram condenados a prisão em 2024. Piffero foi condenado a 10 anos e seis meses de prisão em regime fechado, além de pagamento de multa, pelos crimes de estelionato e organização criminosa. Já Affatato foi condenado a 19 anos e oito meses de prisão em regime fechado e multa pelos crimes de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Outras três pessoas também foram condenadas na mesma sentença. O engenheiro Carlos Eduardo Marques, que era ligado ao Inter à época, foi condenado a seis anos e 10 meses de prisão. Já o empresário da construção civil Ricardo Bohrer Simões e o contador Adão Silmar de Fraga Feijó receberam pena de oito anos e oito meses cada.
*Com informações MPRS e G1 Esportes