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Atualizado hoje às 14:55
Maruim ou 'porvinha': mosquito 20 vezes menor que o pernilongo causa transtornos em SC
Infestação em cidade do Vale do Itajaí fez moradores usarem roupas de frio mesmo com temperaturas acima de 34ºC para se proteger das picadas.
Um mosquito até 20 vezes menor que os famosos pernilogos tem causado problemas de saúde e alterado a rotina de moradores do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Trata-se do maruim, também é conhecido como mosquito-pólvora, polvinha ou 'porvinha'.
Na cidade catarinense de Ilhota, uma infestação do porvinha vem fazendo moradores usar roupas compridas, de frio, mesmo com temperaturas acima de 34ºC para se proteger das picadas. A picada desse inseto pode causar coceira, irritações na pele e transmitir doenças como a Febre do Oropouche, que não tem vacina nem tratamento específico e já causou mortes no Brasil.
De nome científico Culicoides paraensis, o porvinha mede entre um e três milímetros (mm) de comprimento. Segundo o Ministério da Saúde, ele também é cerca de 12 vezes menor que o Aedes aegypti, transmissor da dengue. O tamanho diminuto, que permite ao inseto atravessar telas comuns de janelas e portas, é um dos fatores que dificultam seu controle.
"Tem piorado com o passar do tempo. De uns três anos para cá, a situação está cada vez pior", afirmou Jaqueline Fischer, moradora de Ilhota, no programa Encontro com Patrícia Poeta, da TV Globo, na manhã desta quinta-feira, 9 de abril. "Para fazer algo na rua, é só de calça, blusa comprida e, às vezes, até luva", complementou Tatiana Reichert, também moradora do município.
A prefeitura informou, na quarta-feira, 8, que aguarda a conclusão de um processo de contratação para iniciar o controle do inseto. Segundo a administração, a licitação ainda está em tramitação, e a publicação do contrato deve ocorrer após o cumprimento das etapas legais.
De acordo com o município, há apenas uma empresa no mercado com metodologia específica para o controle do maruim, com grande probabilidade de ser a mesma que já atua em Luiz Alves, cidade vizinha considerada referência regional no enfrentamento do problema.
A prefeitura atribui o agravamento da infestação a fatores climáticos e às características do ambiente local. A presença de água associada à matéria orgânica cria condições favoráveis ao desenvolvimento do inseto. A forte atividade agrícola da região, com cultivos de banana e arroz, também contribui para a reprodução do animal.
O que é o maruim/porvinha e onde vive
Segundo a Fiocruz, o Culicoides paraensis é possivelmente nativo das Américas e foi descrito pela primeira vez no Pará, em 1905, pelo naturalista Emilio Goeldi. Hoje está presente desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina. No Brasil, acredita-se que habite todos os estados, embora só tenha sido oficialmente registrado em 15 deles.
O inseto vive, em geral, em florestas e áreas rurais, especialmente em plantações de banana. No Norte do país, já é encontrado também em áreas urbanas, por causa da proximidade entre cidades e floresta.
A Fiocruz aponta indícios de que o maruim vem aparecendo em centros urbanos de outras regiões do país, em locais onde houve modificação ambiental, o que ainda precisa de confirmação científica.
A proliferação ocorre onde há matéria orgânica em decomposição e umidade. As fêmeas depositam os ovos em troncos podres, cascas de frutas caídas no chão, beiras de riachos, bromélias e folhagem do solo.
Em bananais, usam o cepo da bananeira, o que sobra do caule após a colheita. Em quintais urbanos, qualquer acúmulo de matéria orgânica no chão pode servir de criadouro. Mangues, brejos e pântanos também são ambientes favoráveis.
Só as fêmeas picam. Os machos se alimentam do néctar de plantas, mas as fêmeas precisam de sangue para amadurecer os ovos.
O pico de atividade é no final da tarde, mas o inseto pode picar durante todo o dia se houver humanos ou animais por perto. O voo próprio do maruim alcança cerca de 500 metros, mas, como o inseto é muito leve, o vento pode carregá-lo até dois quilômetros.
O que o maruim pode causar?
Nas pessoas, o maruim pode transmitir o vírus Oropouche, causador de uma febre com sintomas parecidos com os da dengue e da chikungunya: febre de início súbito, dor de cabeça intensa e prolongada, dores musculares e articulares, tontura, náuseas, vômitos e diarreia. A semelhança com outras doenças complica o diagnóstico clínico.
Conforme o Ministério da Saúde, os primeiros sintomas aparecem entre três e oito dias após a picada e duram de dois a sete dias. Até 60% dos pacientes podem ter uma recaída, com o retorno dos sintomas após uma ou duas semanas.
Em casos mais graves, a doença pode afetar o sistema nervoso, causando meningite asséptica ou meningoencefalite. Há também registros de manifestações hemorrágicas.
Não há vacina nem tratamento específico. O manejo é paliativo: repouso, analgésicos para as dores, antitérmicos para a febre e acompanhamento médico.
O Ministério da Saúde orienta que não se tome medicamentos por conta própria e que se busque atendimento em uma unidade de saúde ao primeiro sinal de sintomas. O teste laboratorial para confirmar o Oropouche deve ser feito até o quinto dia do início dos sintomas.
Casos no Brasil
Conforme o painel epidemiológico do Ministério da Saúde, em 2024, foram confirmados 13.782 casos da doença no Brasil, com quatro mortes associadas ao vírus. Em 2025, foram 11.988 casos e cinco óbitos.
O país também registrou, em 2024, os primeiros casos de transmissão vertical, da mãe para o feto, com evolução para morte fetal e malformações congênitas.
A Fiocruz aponta que, em muitos dos locais onde o Oropouche tem sido diagnosticado recentemente, já havia relatos anteriores de infestação por maruim, e Santa Catarina está nessa lista, ao lado da Bahia, do Espírito Santo e da região serrana do Rio de Janeiro.
Como se proteger
Repelentes comuns, inseticidas e telas de janela padrão não funcionam contra o maruim, segundo a Fiocruz. Esses produtos são desenvolvidos para mosquitos de outras famílias, e o inseto é pequeno demais para ser barrado pela maioria das telas disponíveis no mercado.
A recomendação é usar telas de malha muito fina, do tipo voil, com orifícios menores que um milímetro.
Para proteção individual, a Fiocruz orienta o uso de roupas de manga longa, calças compridas e sapatos fechados, especialmente no fim da tarde.
Quem precisar entrar em área infestada pode aplicar óleo corporal na pele exposta, não como repelente, mas como barreira física: o maruim adere ao óleo e não consegue picar. A instituição alerta que não se deve usar óleo de cozinha ou receitas caseiras, que podem causar alergias.
O controle do vetor passa pelo manejo do ambiente: eliminar matéria orgânica acumulada no quintal, cuidar dos bananais e evitar o acúmulo de cascas de frutas ou folhas no chão.
Gestantes precisam de atenção especial. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) recomenda que evitem, na medida do possível, atividades que as exponham ao inseto, especialmente ao amanhecer e ao entardecer.
Toda gestante com febre ou sintomas compatíveis com Oropouche deve ser acompanhada ao longo de todo o pré-natal.
*Informações de GZH e G1