Saúde
Atualizado em 24/11/2025 às 16:43
MPRS debate impactos do vício em apostas e alerta para riscos à saúde mental
Palestra do Programa PertenSER reuniu especialistas para explicar mecanismos de dependência, efeitos das bets e necessidade de regulação
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), por meio do Centro de Apoio Operacional do Consumidor e da Ordem Econômica (CAOCON) e do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (CEAF), promoveu, na quarta-feira, 19 de novembro, a palestra “Transtorno do Jogo e Saúde Mental: Entendendo o Vício em Apostas”. A atividade integra o Programa PertenSER e teve como objetivo esclarecer os impactos do vício em apostas, alertando para o alto potencial de dependência e suas consequências à saúde mental e à vida econômica das pessoas.
O procurador de Justiça André Ricardo Colpo Marchesan, coordenador do CAOCON, destacou a relevância do debate diante do crescimento das plataformas de apostas online. “Estamos diante de um fenômeno que afeta não apenas o consumidor, mas toda a sociedade. É fundamental compreender que o vício em apostas não é uma questão de falta de disciplina, mas um transtorno que exige prevenção”, afirmou.
A dependência
O médico psiquiatra Lucas Spanemberg, responsável pela palestra “Quando o cérebro joga contra si mesmo: o que a neurociência revela sobre as ‘bets’”, explicou os mecanismos cerebrais envolvidos na compulsão por jogos. Segundo ele, “as apostas ativam áreas do cérebro relacionadas à recompensa, criando um ciclo que pode levar à dependência”.
O especialista também detalhou fatores cognitivos que contribuem para comportamentos de risco: “Acreditamos demais em sorte ou azar, temos ilusão de controle, fazemos previsões sem base real e pensamos que eventos passados influenciam resultados futuros. Além disso, somos movidos por emoções — não por razão —, e esse senso de injustiça nos leva a decisões irracionais”.
Spanemberg acrescentou elementos que tornam as plataformas de apostas especialmente atraentes: reforço intermitente dopaminérgico, sons e cores quentes, bônus imediatos, quase acertos, facilidade de pagamento, notificações constantes, vitrines de personalidade e mecanismos gamificados, como cash out. “Por isso, precisamos de regulação. Não se trata de restringir preferências, mas de garantir proteção neurobiológica, controlando, por exemplo, a publicidade das bets, como já ocorre em outros países”, pontuou.
Causas, consequências e tratamento
Na sequência, a médica psiquiatra Fernanda Ramos apresentou a palestra “Bets: da diversão à dependência”, destacando os sinais que indicam o desenvolvimento de um comportamento compulsivo. “Uma pessoa com dependência de jogos apresenta um padrão muito semelhante ao de alguém viciado em drogas. O problema não está apenas na perda financeira, mas nas consequências emocionais e sociais que acompanham essa dependência. É preciso reconhecer cedo os sinais para evitar danos maiores”, afirmou.
A médica explicou que o tratamento envolve psicoterapia, grupos de apoio e mútua ajuda, como Jogadores Anônimos, além do possível uso de medicações que estão em estudo, como o Cloridrato de Naltrexona (NOW MEV).
Sobre os jogos na infância, Fernanda alertou para o papel das famílias. “Quanto mais cedo a criança desenvolve uma lógica de que diversão depende de bônus e recompensas, maior o risco de comportamentos problemáticos no futuro — especialmente em perfis já vulneráveis. Não são todas as pessoas que terão dificuldades, mas a exposição precoce aumenta significativamente o risco”, salientou.
Ao final, os especialistas apresentaram dados de pesquisas recentes que mostram o crescimento acelerado das apostas esportivas na última década, sobretudo entre jovens. Entre as medidas sugeridas estão a adoção de políticas públicas para redução de danos e o investimento em ações de psicoeducação voltadas às pessoas com dependência.