Agro
Publicado hoje às 16:57
A importância da conservação do solo para reduzir erosões e melhorar o armazenamento de água
Pesquisas desenvolvidas pela UFSM monitoram bacias hidrográficas e buscam soluções para ampliar a capacidade produtiva do solo e reduzir os impactos das enxurradas
A conservação do solo e da água é considerada fundamental para aumentar a capacidade produtiva das áreas agrícolas e reduzir os impactos provocados por enxurradas e processos erosivos. O tema foi abordado pelo professor Jean Paolo Gomes Minella, do Departamento de Solos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), durante o Seminário Regional “Capacidade de Suporte do Solo Frente às Adversidades Climáticas”, promovido pela Emater/RS-Ascar.
Em entrevista ao Grupo Chiru, Minella apresentou o trabalho desenvolvido pelo Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Erosão e Hidrologia de Superfície (GIPEHS), que atua na pesquisa sobre erosão, conservação do solo e processos relacionados à água. Segundo o professor, o grupo monitora diferentes bacias hidrográficas do Rio Grande do Sul há mais de 20 anos.
O objetivo é compreender como os processos hidrológicos são influenciados pelas atividades agrícolas e, a partir desse conhecimento, buscar soluções que contribuam para melhorar a capacidade produtiva do solo e, ao mesmo tempo, reduzir os impactos das enxurradas e da erosão sobre os recursos hídricos.
– Trazer prosperidade aos agricultores, mas também minimizar os impactos das enxurradas e erosões nos recursos hídricos, trazendo bem-estar para toda a sociedade –explicou Minella.
Entre os benefícios das boas práticas de conservação está a capacidade do solo de armazenar água. O professor compara o solo a uma grande “caixa d’água”, capaz de receber um grande volume de chuva por meio da infiltração e devolver essa água lentamente ao ambiente.
Para alcançar esse resultado, entretanto, é necessário adotar um conjunto de práticas que vão além do manejo das plantas. Entre os fatores que precisam ser considerados estão a redução da compactação do solo, a maximização da infiltração, o aumento da matéria orgânica e o controle do escoamento superficial por meio de práticas mecânicas. “Isso passa pela compactação, pela maximização da infiltração, pelo aumento da matéria orgânica e o controle do escoamento superficial com práticas mecânicas”, destacou.
Afastamento da ciência e agricultura
Ao abordar os desafios da agricultura, Minella também fez uma reflexão sobre a relação entre o setor e a ciência. Na avaliação do professor, nas últimas décadas houve um distanciamento dos conhecimentos científicos e uma aproximação de práticas que não necessariamente possuem comprovação técnica.
– Nos últimos 20 ou 30 anos, a agricultura se afastou da ciência e se aproximou muito da pseudociência. Vamos falar bem a verdade –, afirmou.
Nesse contexto, o professor destacou a atuação da Emater/RS-Ascar na disseminação de conhecimento técnico junto aos agricultores. Segundo ele, a instituição mantém uma relação importante com a ciência e contribui para levar esse conhecimento ao campo. “Nós, da universidade, que recebemos dinheiro público para realizar pesquisa, queremos isso: o bem-estar do agricultor, o bem-estar da comunidade, e não daqueles que vendem serviços ou vendem insumos”, ressaltou.
Para Minella, a discussão também passa pela necessidade de identificar quais tecnologias efetivamente contribuem para a agricultura e quais princípios básicos precisam ser retomados. Ele considera que a tecnologia tem papel importante no campo, mas deve estar apoiada no conhecimento científico e nas características de cada região. “A gente precisa resgatar os princípios básicos e rever o que de fato é tecnologia e o que de fato é ciência”, defendeu.
O professor também ressaltou que o conhecimento científico precisa considerar as condições locais de cada propriedade. Na avaliação dele, a tecnologia pode potencializar os resultados quando aplicada a partir de princípios técnicos já consolidados.
– A tecnologia é extremamente importante depois que o agricultor conseguiu adotar os princípios básicos que vêm do conhecimento científico, que é local –, explicou.
Controle do escoamento ainda é desafio
Apesar da importância das medidas de conservação, Minella ressalta que controlar o escoamento superficial da água ainda é um dos principais desafios. Os agricultores vêm buscando alternativas para enfrentar o problema, mas ainda existem questões que precisam ser aprofundadas pela pesquisa científica para ampliar a eficiência das práticas adotadas.
O desafio está justamente em transformar o conhecimento disponível em medidas que possam ser aplicadas de forma eficiente nas propriedades rurais. “Isso é fácil de falar, mas é complexo de colocar em prática”, afirmou.
As pesquisas desenvolvidas pelo GIPEHS buscam contribuir para esse processo, aprimorando estratégias capazes de aumentar a infiltração da água no solo, reduzir perdas por erosão e melhorar a capacidade das áreas agrícolas de enfrentar períodos de chuvas intensas e outros eventos climáticos adversos.