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  • Mudanças climáticas exigem adaptação na produção agrícola

    Implementação de sistemas agroalimentares amplia a visão sobre a produção de alimentos e pode contribuir para a adaptação do setor às novas condições climáticas

    As mudanças climáticas têm se tornado um desafio cada vez mais presente para os produtores de alimentos e exigem novas estratégias no campo. Estiagens prolongadas, excesso de chuvas e outros eventos extremos colocam em discussão o futuro da produção agrícola e reforçam a necessidade de adaptação.

     

    Nesse cenário, o debate passa a considerar não apenas o que acontece dentro da propriedade rural, mas também todas as etapas envolvidas até que o alimento chegue à mesa do consumidor. É nesse contexto que ganha espaço o conceito de sistemas agroalimentares, que reúne os diferentes setores, pessoas e atividades relacionados à produção, processamento, transporte, distribuição, comercialização e consumo dos alimentos.

     

    Durante entrevista à Chiru, o presidente da Emater, Claudinei Baldissera, destacou a importância de ampliar a forma de pensar a produção rural. Segundo ele, mais do que tratar separadamente dos sistemas agrícolas ou pecuários, é necessário compreender o conjunto de atividades que integra a produção de alimentos. “Mais do que falar de sistemas agrícolas e pecuários, precisamos falar de sistemas agroalimentares. São sistemas que interessam a todas as pessoas que produzem alimentos que chegam na mesa do consumidor”, afirmou.

     

    Adaptação começa dentro da propriedade

     

    Para Baldissera, a preparação para as mudanças climáticas também envolve decisões relacionadas ao manejo do solo e ao planejamento da produção. Entre os instrumentos que devem ser considerados está o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), além da adoção de diferentes níveis de manejo de acordo com as características de cada propriedade.

     

    Na avaliação apresentada pelo presidente da Emater, as condições do solo estão relacionadas não apenas à capacidade produtiva, mas também a questões como acesso ao crédito rural e a mecanismos de proteção da produção, como o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).

     

    Nesse sentido, o planejamento deve considerar a propriedade como um conjunto integrado. “É preciso compreender a propriedade como uma rede única de todo o sistema da produção agrícola, vegetal e animal”, destacou.

     

    O que são sistemas agroalimentares?

     

    Os sistemas agroalimentares compreendem o conjunto de atividades, pessoas e recursos envolvidos nas diferentes etapas relacionadas aos alimentos, desde a produção até o consumo e o descarte.

     

    Esse processo inclui a produção agrícola e pecuária, o processamento, o transporte, a distribuição, a comercialização e o consumo. Participam dessa cadeia produtores rurais, agroindústrias, trabalhadores, distribuidores, comerciantes e consumidores.

     

    Dessa forma, a produção agrícola e pecuária representa apenas uma parte de uma estrutura mais ampla, que conecta diferentes setores e atividades para que os alimentos sejam produzidos, processados e cheguem ao consumidor.

     

    A produção no campo é, portanto, apenas uma das etapas desse processo. Depois de colhidos ou produzidos, os alimentos passam por diferentes fases, como armazenamento, transporte, distribuição e comercialização. Falar em sistemas agroalimentares significa, justamente, ampliar o olhar sobre a produção e compreender como essas etapas estão interligadas.

     

    É essa visão mais ampla que Baldissera defende. Para ele, a discussão não deve se limitar à agricultura ou à pecuária, mas considerar o conjunto de atividades e pessoas envolvidas na produção e na chegada dos alimentos ao consumidor.

     

    Agricultura familiar tem papel estratégico

     

    A agricultura familiar é um modelo de produção rural em que a gestão da propriedade e a mão de obra são predominantemente familiares. No Brasil, o segmento possui importância econômica, social e ambiental e participa de diferentes etapas do abastecimento e da produção de alimentos.

     

    Dentro dos sistemas agroalimentares, a agricultura familiar ocupa um papel relevante, não apenas pela produção realizada nas propriedades, mas também pela sua participação em processos de abastecimento, comercialização, distribuição e consumo.

     

    Essa atuação insere os agricultores familiares em uma cadeia que reúne diferentes atores e atividades. O sistema agroalimentar envolve desde o acesso à terra, à água e aos meios de produção até as etapas de processamento, abastecimento, comercialização, distribuição e consumo dos alimentos.

     

    Nesse contexto, fortalecer a agricultura familiar também significa considerar as diferentes etapas que fazem parte da produção e da chegada dos alimentos ao consumidor. É na relação entre quem produz, transforma, distribui e consome que se estrutura o sistema agroalimentar.

     

    Por estar próxima das propriedades e ter atuação voltada especialmente ao atendimento dos pequenos produtores, a Emater acompanha as mudanças e avalia que esse processo de transformação já começa a ser percebido no campo. “A agricultura começa a se preparar para uma fase que se aproxima do que são os sistemas agroenergéticos, que é produzir energias limpas, os biocombustíveis, aquilo que tanto a população precisa também, além dos sistemas agroalimentares para manter e sustentar a vida, mas também sistemas agroenergéticos”, salientou Baldissera.

     

    Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a agricultura familiar possui papel de destaque na produção de alimentos e na geração de empregos no campo.

     

    Dados do Censo Agropecuário de 2017 apresentados pela instituição apontam que 77% dos estabelecimentos agrícolas brasileiros foram classificados como de agricultura familiar. O segmento também empregava mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente a 67% do total de pessoas ocupadas na agropecuária.

     

    A Embrapa destaca ainda a diversidade de alimentos produzidos pela agricultura familiar, entre eles milho, mandioca, feijão, arroz, leite, frutas e hortaliças. Os dados reforçam a participação do segmento na produção de alimentos e na segurança alimentar do país.

     

    Diante das mudanças nas condições climáticas, a discussão sobre o futuro da produção passa, portanto, pela necessidade de integrar diferentes estratégias. O planejamento da propriedade, o manejo adequado do solo, a utilização de ferramentas de gestão de risco e a integração entre produção, abastecimento e consumo fazem parte de uma visão mais ampla sobre os desafios enfrentados pelo setor.

     

    Luiza Pinto Pereira - Estagiária de Jornalismo
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