Esportes
Atualizado hoje às 09:02
Morre o jornalista Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, aos 70 anos
Comunicador do Grupo RBS morreu nesta quarta-feira, em Porto Alegre, após internação por infecção pulmonar
O jornalismo esportivo gaúcho perdeu um dos grandes nomes de sua história. Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, morreu na madrugada desta quarta-feira (28), aos 70 anos. Ele estava internado desde domingo (25) no Instituto de Cardiologia, em Porto Alegre, devido a uma infecção pulmonar que evoluiu para um quadro generalizado.
Ao longo de uma trajetória de mais de cinco décadas, Guerrinha fez história no jornalismo esportivo. Com um carisma único, o comunicador colorado transcendeu torcidas e conquistou milhares de admiradores com a sagacidade de seus comentários. Um jornalista e colega conhecido pelo bom humor e pelas grandes tiradas, mas, sobretudo, pelo profissionalismo, pelo amor ao futebol e pela conexão com o público. Seu legado e seu exemplo permanecem, destaca Patrícia Fraga, CEO da RBS.
Ainda não há informações sobre velório e despedida do jornalista.
Guerrinha, um ícone do jornalismo gaúcho
O comunicador esportivo do Grupo RBS marcou o público pela versatilidade, pelo carisma e pelas frases de efeito, tão engraçadas quanto sarcásticas.
Suas tiradas preencheram as ondas do rádio nos últimos 27 anos, desde sua estreia em 1999, e as redações de jornalismo por mais de cinco décadas. Com sentenças certeiras e espontâneas, fazia parecer que sempre tivera intimidade com o microfone. Embora a ligação com o rádio remeta à infância, devido ao trabalho do pai, foi "juntando as pretinhas", como carinhosamente chamava as letras impressas nos jornais, que teve contato com a comunicação desde o primeiro dia da carreira.
Guerrinha, como era chamado pelos colegas de maior tempo de convivência, era filho da funcionária pública Ieda e do rádio-ator e comunicador da Rádio Gaúcha Adroaldo Guerra, popularmente conhecido como Vovô Guerra por apresentar um programa infantil.
Do pai, herdou sobretudo o gosto pelo turfe. O jornalismo veio de charrete, com a atração pelo mundo das corridas de cavalo. Apesar de admirar a carreira artística do pai, Guerrinha não imaginava que viria a ter sucesso no rádio.
Turfe marca início da carreira
A longa vivência no hipódromo e o carisma o tornaram um contador de histórias inusitadas, sempre acompanhadas da inconfundível risada, fosse no ar ou nos corredores. Não era raro vê-lo com uma plateia atenta ouvindo seus causos. O bom humor também aparecia nas frases que se tornaram marcas de sua personalidade, como a comparação: "Não se pode ir pra guerra com um secador de cabelo".
Estudante de Jornalismo na PUCRS, Guerrinha publicou suas primeiras palavras no Jornal Hoje, criado pela RBS nos anos 1970. Logo em seguida, passou a acompanhar o cotidiano do Jockey Club para a Folha da Manhã e, depois, para o Correio do Povo.
À época, as provas mereciam destaque de página diária, visto que os cavalinhos, como ele gostava de se referir aos animais, também eram uma das paixões de Breno Caldas, dono da Empresa Jornalística Caldas Júnior, da qual os dois jornais faziam parte.
Na RBS desde 1983
O retorno ao Grupo RBS ocorreu em 1983, quando, a convite de Emmanuel Mattos, passou a escrever sobre assuntos hípicos em Zero Hora. Embora reconhecesse seu conhecimento sobre o prado, afirmava que ganhou a oportunidade porque ninguém queria tratar do tema.
O espaço dedicado ao turfe foi minguando até que, em 1993, a cobertura chegou ao fim devido ao público diminuto. A partir dali, começou a trabalhar com futebol e passou a fazer a cobertura do Inter em Zero Hora.
Foi também nesse período que seu repertório de frases passou a traduzir, com ironia, situações do cotidiano. Ao falar sobre escolhas inadequadas, por exemplo, costumava dizer: "Não dá pra servir farofa em restaurante com ventilador de teto".
A transição para o futebol foi um "parto sem dor". Afinal, o esporte também fazia parte do cotidiano do jornalista. Foram anos percorrendo os corredores do Beira-Rio atrás de informações.
Do jornal para o rádio
Guerrinha sentenciava que só ganha na loteria quem compra o bilhete, defendendo que é preciso arriscar. No final daquele século, começou a se aventurar fora das páginas do jornal, às vezes com a necessidade de receber um empurrãozinho.
A transformação em um homem de rádio iniciou-se em 1999, quando a Gaúcha lançou, sob a grife de Paulo Roberto Falcão, o programa de entrevistas Falcão na Gaúcha, coapresentado por ele. Em 2014, três anos após a saída do ex-jogador da emissora, foi criado o Paredão do Guerrinha, atração com a mesma ideia do projeto anterior.
Entre as frases que marcaram sua trajetória, algumas chamavam atenção justamente pelo contraste e pela irreverência, como "Dormindo no gelo e acordando suado", expressão que sintetizava seu jeito particular de construir imagens e provocar reflexões.
Bem antes, na virada do milênio, a atuação profissional no meio impresso havia ganhado um capítulo importante. Em 17 de abril de 2000, quando o Diário Gaúcho começou a circular, ele estreou a coluna Guerra Total. A principal marca de seu espaço era a perguntinha, um questionamento instigante e irreverente que fazia o leitor refletir sobre o tema do momento.
A estreia na TV
A entrada na televisão foi tão inusitada quanto suas frases. No começo dos anos 2000, a RBS TV transmitia o Lance Final nas noites de domingo. Apresentado por Pedro Ernesto Denardin, o programa tinha na bancada Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, como representante gremista, e Ibsen Pinheiro como representante colorado. Ibsen deixou a atração para se dedicar à vida política, e Guerrinha foi escolhido para substituí-lo.
A possibilidade de aparecer na televisão também virou motivo de brincadeira. Guerrinha dizia que, se beleza fosse crime, seria inocente: "Se beleza fosse crime, eu seria inocente". Além de não ter intimidade com a câmera, não se via trabalhando na TV. Convocado para fazer um teste, utilizou todas as artimanhas possíveis para não ser aprovado. A estratégia não funcionou. Ele foi chamado para conversar com Nelson Sirotsky, então presidente da RBS.
A identificação pública como colorado era vista como uma encrenca, especialmente em um ambiente jornalístico que buscava preservar a credibilidade. A ironia de Guerrinha aparecia até nessas situações, e a frase "restaurante que serve farofa não tem ventilador de teto" ficou associada ao assunto.
A pergunta feita por Nelson Sirotsky era simples e tinha duas opções.
— O Nelson me perguntou assim: "Tu preferes ser identificado com a torcida colorada na RBS ou isento em outro lugar?". Minha resposta foi rápida: "A que horas tenho que estar lá?" — costumava contar quando questionado sobre o assunto.
Chegada ao Sala de Redação
A estreia no Sala de Redação não tardou. Em 2004, foi convocado para cobrir as férias de Kenny Braga. Guerrinha sentou na bancada do mais tradicional programa de debates esportivos do Rio Grande do Sul para não sair mais.
Como dizia, "não se vai para guerra com uma escova de dentes". A frase traduzia seu estilo direto e bem-humorado, com o qual chegou à bancada munido de um arsenal de tiradas para participar da acalorada troca de ideias no horário do almoço.
Uma das expressões mais famosas foi apelidada por Pedro Ernesto Denardin como "Lei Guerrinha". Ela tenta explicar aquelas mudanças inexplicáveis feitas por treinadores de futebol quando tudo parece correr bem. "Se algo deu certo, então tem que mudar", diz o artigo único da Lei.
As sacadas oportunas e as opiniões ferinas combinaram com o perfil do programa e o transformaram em um dos participantes mais queridos pelo público. O receio de sofrer retaliações por se identificar como colorado se esfarelou. A acidez nos comentários para os dois lados fez com que ganhasse admiradores entre vermelhos e azuis, uma marca mantida até o fim da carreira e da vida.
Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, deixa a esposa, Kathia, as filhas Michelle e Karine e três netos.
* Com informações de GZH