Agro
Atualizado ontem às 12:10
Produtor rural precisa estar cada vez mais atento às previsões do tempo
Meteorologista alerta para mudanças nas condições climáticas e destaca a importância de utilizar as informações meteorológicas como aliadas no planejamento das atividades no campo
Além dos cuidados com as sementes e as condições do solo, o produtor rural precisa cada vez mais incorporar o monitoramento meteorológico à rotina da propriedade. A previsão do tempo e as projeções climáticas podem auxiliar na programação do plantio, da aplicação de insumos, da colheita e até mesmo do transporte da produção.
Em entrevista ao Grupo Chiru, o meteorologista do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), Flávio Varone, destacou que o órgão já disponibiliza informações específicas para diferentes culturas e trabalha na ampliação dessas ferramentas. A proposta é permitir que os produtores tenham acesso a dados que contribuam para decisões mais assertivas, especialmente diante da variabilidade climática registrada no Rio Grande do Sul.
O Simagro-RS é uma ferramenta da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul voltada ao monitoramento das condições meteorológicas e climáticas do Estado. O sistema reúne dados de diferentes fontes e disponibiliza informações para auxiliar no planejamento das atividades agropecuárias.
– Trabalhamos para trazer dados para que o produtor realmente possa se programar, baseado nas condições meteorológicas e climáticas aqui no Estado –, pontuou Varone.
Clima como aliado
Após os eventos climáticos extremos registrados no Rio Grande do Sul em 2024, o Estado passou a ampliar as estratégias de monitoramento e prevenção.
Para Varone, entretanto, a disponibilidade de informações precisa estar acompanhada da utilização desses dados pelo setor produtivo. “O Estado está mais preparado para isso, para essas catástrofes, para esse tipo de evento mais severo. Porém, no setor agropecuário isso reflete muito mais. O produtor tem que trabalhar com a informação meteorológica desde o preparo do solo até chegar na colheita, em todos os ciclos de uma safra, até mesmo no transporte”, explicou.
Entre as iniciativas desenvolvidas para ampliar o suporte aos produtores está a utilização de um modelo regional baseado em inteligência artificial. A tecnologia utiliza dados coletados pelas estações meteorológicas para gerar novas projeções e aprimorar as informações disponibilizadas.
Atualmente, a rede conta com mais de 100 estações meteorológicas associadas a parceiros, que fornecem dados ao sistema. A expectativa é incorporar cada vez mais essas informações ao modelo meteorológico, tornando as previsões mais rápidas e precisas.
As informações podem ser acompanhadas pelos produtores por meio do site do Simagro-RS e também dos aplicativos disponíveis para os sistemas iOS e Android. “A tendência é nós melhorarmos isso nos próximos anos”, afirmou Varone.
Mudanças locais também influenciam
O meteorologista também chama a atenção para as transformações provocadas pelo crescimento das cidades. A expansão urbana, associada à redução de áreas verdes e à falta de reflorestamento, pode alterar as condições de temperatura e outros aspectos do clima em determinadas regiões.
– O clima, na verdade, está sempre em constante mudança. Uma cidade que cresce, você muda a temperatura daquela cidade e, com o não reflorestamento, você não consegue deixar essa temperatura em um nível mais aceitável. Então, você realmente muda o clima nesse espaço –, explicou.
Varone avalia que o Rio Grande do Sul vem enfrentando um padrão de eventos meteorológicos mais severos e recorrentes, mas ressalta que não é possível afirmar que esse comportamento permanecerá da mesma forma no futuro. “Estamos vivendo um padrão e a gente tem que se preparar melhor para isso”, salientou.
El Niño exige atenção dos produtores
Outro fator que deve ser acompanhado pelos agricultores é a atuação do El Niño. Segundo Varone, a projeção aponta para um fenômeno mais forte neste ano, o que pode influenciar especialmente as condições de chuva durante a primavera e o verão.
A tendência é de aumento dos volumes de precipitação, cenário que pode atrasar o plantio das culturas de verão e, ao mesmo tempo, prejudicar o período final das lavouras de inverno.
Para acompanhar os possíveis impactos, o meteorologista reforça que o produtor precisa observar tanto as projeções climáticas quanto as previsões meteorológicas de curto prazo. Isso porque o fenômeno climático, por si só, não determina exatamente como os eventos irão se comportar em cada região. “O El Niño, por si só, não determina a intensidade do fenômeno”, afirmou.
Varone também chama a atenção para outro comportamento que pode afetar as lavouras: os períodos curtos de estiagem. Mesmo em um cenário de maior ocorrência de chuvas, podem ocorrer intervalos de 10 a 15 dias sem precipitação, capazes de provocar impactos quando as plantas estiverem em fases de maior necessidade de umidade.
Esses períodos podem ocorrer inclusive durante um El Niño considerado forte e atingir diferentes regiões do Estado.
A principal orientação deixada pelo meteorologista é que o produtor não deve olhar para os fenômenos climáticos de forma isolada. Mesmo eventos conhecidos, como o El Niño, apresentam comportamentos diferentes de um ano para outro. “O El Niño é um combustível para potencializar um evento severo”, explicou Varone, reforçando a importância de acompanhar continuamente as previsões e utilizar as informações meteorológicas como ferramenta de planejamento da atividade rural.